Saturday, March 15, 2008

....Os Filhos e Os Pais....

( Affonso Romano de Sant'Anna )

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estagnados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre, e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente. Um dia sentam-se perto de nós no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que nós sentimos que não se pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
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Que é que aconteceu à pázinha de brincar na areia, às festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do infantário? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil...
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E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incómodas mochilas da moda nos ombros.
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Ali estamos nós, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
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Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos.
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Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judo. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
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Não os levámos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes comprámos todos os gelados e roupas que gostaríamos de ter comprado.
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Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afecto.
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No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chickletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar os amigos e os primeiros namorados.
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Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se você tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possível.
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O jeito é esperar: A qualquer momento podem dar-nos netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estafado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer connosco. Por isso os avós são tão desmesurados a distribuírem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afecto.
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Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
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Aprendemos a ser filhos depois que fomos pais.....“Só aprendemos a ser pais depois que somos avós...”

11 comments:

O Profeta said...

O Sol abandonou o céu
A Lua ironiza no celeste
Soltas perversas vontades
Cruzam a tua vida agreste


Convido-te a partilhar a minha visão da forma em
como a vida às vezes é perversa para algumas mulheres…

Bom domingo

Doce beijo

ivone said...

o neto é um segundo filho
é ser pai ou mãe segunda vez
e o afecto por demasiado que seja nunca é demasiado
não há que compensar nada há que continuar a dar amor

bj

Alma Nova said...

Sabes? Acho que nunca aprendemos o suficiente, nem como pais nem como avós. A vida sempre nos vai ensinando algo mais...e as relações humanas são um campo inesgotável, desde que vividas com sentimentos.
Boa Páscoa!

Sniqper ® said...

Bem lá no fundo da Vida amiga, acho que é onde aprendemos...
E bem lá no fundo da VIda é quando nos entregamos aos nossos sentimentos...
E sem receio ou medo de errar damos o nosso melhor, o amor.

O Profeta said...

Esta é a alma que voa de um Profeta
Ao encontro do teu sentimento
Este é o sal de alva espuma
Que te ofereço e diadema de espanto…

Olhos de alma, da tua alma
Quero-os no cais da minha chegada
Espero por ti em manto de ternura
No encontro da minha caminhada


Bom domingo

Mágico beijo

Memory said...

Profeta,
Uma vez mais, muito obrigado por mais um dos teus poema.

Bom fim de semana
Beijos

Memory said...

Ivone,
Também acho, além de que o amor pelos filhos, netos, não se deve esgotar....

Bjs

Memory said...

Alma,
Igualmente boa Páscoa. Eu acho que na vida nunca aprendemos tudo, e estamos constatemente a aprender com a vivência humana e seu relacionamento. Mas também te digo que não é para todos....

Bjs

Memory said...

Sniqper,
Concordo contigo plenamente. O importante também é não termos receios nem medos.

Bjs

Adoa said...
This comment has been removed by the author.
Adoa said...

Pois crescemos... e é uma "merd..." porque somos obrigados a CRESCER...

Não podemos manter a chama da paixão pela vida... ao ver as coisas à nossa volta e demonstrar alegria, tristeza... Amor...

Temos de trazer uma máscara connosco para mostrar aos outros o quanto CRESCEMOS...

Não gosto...

Gostei sim do teu texto!
Beijo!